Quando se fala em autismo, muita gente ainda imagina um retrato único: uma criança isolada, que não fala, que não olha nos olhos e que não demonstra afeto. Esse retrato, além de impreciso, causa danos reais. Ele atrasa diagnósticos de crianças que não se encaixam no estereótipo e alimenta expectativas equivocadas sobre as que já foram diagnosticadas.
O que significa "espectro"
O Transtorno do Espectro Autista recebe esse nome justamente porque suas manifestações variam enormemente de pessoa para pessoa. O que há em comum são diferenças na comunicação e interação social e a presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, que podem incluir particularidades sensoriais. Mas a forma e a intensidade com que essas características aparecem compõem combinações praticamente infinitas.
Existem crianças autistas que falam pelos cotovelos sobre seus temas de interesse e crianças que se comunicam por meios alternativos. Existem crianças que buscam abraços apertados e crianças que preferem demonstrar afeto de outras formas. Existem crianças com desempenho intelectual acima da média, na média e abaixo dela. Existem meninas autistas cujas características passam despercebidas por anos, porque aprenderam desde cedo a camuflar suas dificuldades sociais imitando as colegas.
É por isso que se diz, com razão, que quando você conhece uma pessoa autista, você conhece uma pessoa autista. Apenas uma.
O que costuma estar presente, de formas diferentes
Ainda que cada criança seja única, algumas dimensões aparecem com frequência no espectro e ajudam as famílias a compreenderem seus filhos. A preferência por rotina e previsibilidade, porque um mundo previsível é um mundo menos exaustivo de processar. Os interesses intensos e aprofundados, que já foram chamados de "restritos" mas que hoje reconhecemos como potenciais fontes de conhecimento, prazer e até futuro profissional. As particularidades sensoriais, que fazem com que sons, luzes, texturas e cheiros sejam percebidos com intensidade diferente, às vezes maior, às vezes menor. E os movimentos repetitivos, como balançar as mãos ou o corpo, que cumprem funções importantes de autorregulação e não devem ser simplesmente suprimidos.
O Caio, nosso Navegador Espacial, ilustra bem isso: o balançar das mãos enquanto observa as estrelas é o que o acalma e o ajuda a pensar, e seu profundo conhecimento sobre o sistema solar é motivo de orgulho, não de correção.
Por que o olhar individualizado importa
Compreender que o autismo é um espectro muda a prática do cuidado. Significa que não existe um protocolo único que sirva para todas as crianças autistas. A intervenção eficaz parte de uma avaliação cuidadosa do perfil daquela criança específica: como ela se comunica, o que a interessa, o que a desorganiza, quais são suas forças e onde estão suas necessidades de suporte.
Significa também abandonar o objetivo de tornar a criança "menos autista" e adotar o objetivo correto: ajudá-la a se desenvolver, se comunicar, aprender e viver bem, sendo quem ela é. Crianças autistas não precisam de conserto. Precisam de compreensão, suporte adequado e um ambiente que celebre sua forma única de perceber o mundo.
Se você percebe no seu filho características que este texto descreveu e ainda não há um diagnóstico, uma avaliação especializada pode trazer as respostas que sua família procura. E se o diagnóstico já existe, lembre-se: ele é o começo da compreensão, nunca o fim da história.
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Equipe Clínica LudoSer
Antônio Marcos Lima Vieira · Psicólogo · CRP 18/03359 · Responsável Técnico
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